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Dark side of the luaemgêmeos

Ai de mim! Uma lua que flutua! Quantas vozes falando ao mesmo tempo! Essa mania de querer presentear com termos os não-nomeáveis sentimentos. Galera: não dá pra ouvir ninguém! Que trabalho estéril! Dar nome ao que não se pode dar nome... Que não o faça mais! As vozes: elas não param! Que trabalho estéril! Elas se encarregam de gritar nomes & termos para me ajudar a esclarecer tudo isso que não é passível de esclarecimentos Me sinto como em uma guerra de conceitos, pescando no meio de ruídos pequenos excertos de cada sentença lunar Pedaço daqui pedaço dali Construo um Frankstein de significâncias Que não servem pra nada além de significar & ressignificar Para construir um castelo em cima de terra inflamada & movediça Que logo desmorona com a primeira nova genial ideia de dar novos significados Que trabalho estéril! As vozes, elas não param nunca! Que  trabalho  estéril! Continuam sem descanso, se reposicionando sobre as sensações que parasitam em mim Como se fosse u...

2x2

era fim de tarde ou começo de alguma coragem as portas ficam a 20cm de se fechar quando um braço tatuado interrompe o movimento  e ai você já não era mais só nem ele. duas presenças no mesmo quadrado de ar rarefeito e o tempo suspenso você segurava palavras como quem carrega uma xícara cheia cada sílaba tremia no pires do peito mas mesmo assim falou. falou da cicatriz. da piada inventada na copa aobre um urso que causou a cicatriz da moto, da sexta-feira. coisas pequenas que encobrem um coração escancarado. ele estava mais solto do que a última vez como se soubesse que ali dentro morava um perigo bom. e você, estava inteira. tensa. viva. completamente fascinada pelo instante. era só um elevador... alguns podem dizer. mas a verdade é que  todo mundo sabe que  os grandes encontros moram nos menores espaços.

mecânica-orgânica

Tu é como um susto manso. Um trovão que sussurra. O silêncio que me encosta mais do que qualquer palavra.  Não é sobre te conhecer. É sobre te reconhecer. Como se tu fosse uma porta que minha alma empurrou no escuro sem saber que do outro lado ia ter luz. E quando teus olhos cruzaram os meus — foi como se o mundo tivesse ficado em silêncio por um segundo, só pra eu ouvir o que o meu corpo dizia sem dizer. Ou melhor, gritava. Era um arrepio antigo, um frio na barriga que parecia abraço de memória. Tipo quando a gente lembra de algo que ainda não viveu, mas jura que já sonhou em alguma vida. E eu só queria poder tocar teu rosto com o pensamento, só pra te avisar que você existe em mim como música mesmo nos dias em que eu não escuto nada. Eu fico tentando não pensar. Mas teu nome sem som grita por dentro como se tivesse sido escrito nas paredes do meu estômago.  Palavras-borboletas, mecânica-orgânica. Quando respiro fundo tu vem. Na forma do ar que eu inspiro na curva do céu que ...

inverno arrastado

 o sol lá fora anuncia um forte verão pela frente é domingo e como é domingo, e tem sol lá fora, as pessoas estão espalhadas pelos parques da cidade, pelo menos uma parte delas outra parte está infurnada dentro dos vidros de um shopping com ar condicionado dando conta do calor que faz la fora e escondendo toda a paisagem que acompanha a quentura do dia outra parte, menor, permanece em casa, por preguiça, por opção, para descansar ou para trabalhar em serviços domésticos invisíveis já eu, estou trabalhando em uma tarefa operacional o suficiente para que eu possa escrever em desacordo com o resto mas em acordo com uma fatia bem grande de população que trabalha em escala 6x1  aqui, perto de um parque, vejo pessoas passando apressadas para chegarem debaixo de alguma sombra do computador que registro a compra de livros, tortas, taças e vinhos e ciabatas dessa livraria-café, vejo vultos passeando pelas portas de vidro da loja - queria eu estar no lugar delas? o calor não me seduz ne...

no poço todo mundo é um pouco fernando pessoa

e antes de sair do poço é preciso se deitar no poço, rolar no poço, beijar o poço e se fazer um só com ele. é preciso romantizar o poço para tirar o poço da experiencia individual para desmistificar o poço para desconstruir e decimentar as pedras concretadas que fazem o poço ser poço é preciso fazer um pouco morada do poço - mas não muito - como se fosse um airbnb nada familiar mas ainda assim um pouco confortável que te abriga do desconhecido lá de fora é preciso descrever os dias no poço para que ao ler se veja que até dentro dele há um tanto de beleza de poesia de inspiração para registrar memórias para inscrever no tempo para brincar de álvaro de campos todo mundo acha que é um pouco fernando pessoa dentro do poço embelezando toda a fúria toda chama ardente de raiva e tristeza que também compõe o estar dentro poço  e na hora de ir embora dele é preciso carregar bagagens pois o poço também deixa marcas rastros que se carrega para fora dele querendo ou sem querer e é preciso esca...

se você quiser

deixar pra lá o que é de deixar pra trás e dar vasão ao que o desejo quer desejar deixa estar deixa estar e deixar encostar o que tiver que encostar bem juntin, coladin, devagarin, isso é demais vem mais pertin, gostosin, o teu cheirin, cheiro de quero mais o ritmo de dois corpos se comunicando sem falar uma troca silenciosa mas tão barulhenta que dá pra escutar se você quiser se você quiser, eu quero (eu quero) já que te vi e que tu também me viu e a musica nos emprestou um ritmo febril pra durar deixa estar deixar o som tocar o que tiver que tocar o delírio de dois corpos no spotify rodando "Fullgás" um abajur cor de carne se é tudo um sonho não me acorde mais se você quiser se você quiser, eu quero (eu quero)

pretérito (im)perfeito

e a gente se encontrava e se abraçava forte como se fosse virar uma coisa só e passava os dias e a gente sentia saudade e a gente cozinhava juntas  e eu fazia hamburgers e trufas e tu fazia pizzas e bolos e a gente comia assistindo qualquer coisa que fosse possível maratonar e a gente pedalava juntas sentindo o vento na cara  e a gente dava muita risada dos outros, da gente, da vida e a gente vestia roupas combinando porque o cliché só é cliché porque de certa forma faz sentido e quando chegasse a noite a gente se acomodava na cama conchinha maior depois menor e depois a gente encontrava um novo encaixe pra 2 corpos na horizontal e de manhã a gente sorria feliz de se escolher mais um dia porque nesse faz-de-conta a gente queria a mesma coisa 

relance

 you don't me  se me conhecesse das duas uma ou fincava o pé junto de onde piso ou corria como diabo da cruz ou como devedor de agiota you don't know me at all  ainda que depois de algumas travessias lado a lado nosso lance é relance de novo outra vez de raspão de revesgueio relance de um lance um quase muito de qualquer coisa intensa no instante que as presenças existem num mesmo aqui impermanência de um encontro cola de contato  difícil desgrudar só sai com agua quente onde a chance de se queimar é bem grande lance que queima em 4° grau relance que bota dedo na ferida  e esse misto de dor e delícia de ser duas e se despedir de novo e mais uma vez ainda q não houvessem ruas que tudo fosse mato ou estivéssemos no deserto do saara ainda te encontraria de um jeito ou de outro lance magnético  difícil fugir com esses polos puxando desse jeito queria poder ter outras vidas pra poder te  encontrar e reencontrar de novo outra vez  me re-lanço on repeat ...

amizade furta-cor

senti um arranhão em alto relevo nas minhas costas e me perguntei se ele foi feito na nossa última noite. tudo me pareceu tão cru e intenso dentro da escuridão do teu quarto que não posso me dar certeza se é daí que vem a nova cicatriz. mas o fato é que ela tá aqui. essa e as cicatrizes invisíveis que ficaram pós-nós. porque foram noites de abrir feridas, de ajudar a lambê-las e se ver uma na outra. noites de ficar tão nua quanto se pode estar diante de alguém, e não estou falando só no sentido literal da coisa.  esse novo arranhão que tatua minha pele representa, dentre várias coisas indizíveis, a possibilidade do sentir. porque ainda dois minutos antes da gente acontecer daquela forma eu não achava que pudesse sentir uma conexão tão forte novamente. me via apática e desesperançosa. não sei como a química do meu corpo mudou tão de repente. foi te tocar para que tudo simplesmente virasse de cabeça pra baixo.  acho, na verdade, q a gente nunca havia se tocado antes do choque. n...

faz tempo

faz tempo que não escrevo. isso faz a gente perder a prática sabe. eu preciso voltar a escrever um diário. me fazia tão bem. lembro da sensação de escrever a lápis no caderno durante a madrugada, sendo uma adolescente melancólica e deslumbrada ao mesmo tempo. era um momento tão íntimo e grandioso. era o meu momento. comigo mesma. onde me sentia uma personagem de um filme do almodóvar. não tenho tido esses momentos. aliás, sinto como se tivesse perdido a conexão com aquela persona que eu tanto me orgulhava em ser em segredo. em extrapolar em silencio.  preciso me reconectar. com ela ou ao menos com qualquer coisa. é q sinto essa falta de não sei o quê. como se eu estivesse sempre prestes a encontrar algo que eu continuo a não achar e nem saber o que é. mas tá logo ali.  eu costumo dizer que entendo clarice lispector e fernando pessoa. talvez acham q eu to falando da obra, mas eu falo do âmago mesmo. do que move a escrita, do pensar. talvez eu nem seja desse tempo. as pessoas fa...

tremor

"Às vezes, quando estou sentada a uma mesa, por exemplo, com amigos, ou quando estou no metrô, num domingo à tarde, por exemplo, ou diante das prateleiras do supermercado, à noite, depois do trabalho, me sobe esta raiva. Essa raiva do fato de que ninguém jamais vai saber como eu me sinto de verdade. Como é ser eu. Nunca ninguém verá minhas mãos como eu as vejo. Ninguém vai ter essa sensação, no fundo do peito, que eu tenho quando fico insegura. Aí eu sinto medo. Às vezes sinto medo do mundo lá fora. Não quero sair da minha casa. Não quero ver ninguém. Imagino, quando vou para a rua, que as pessoas ficam me olhando. Fico tão nervosa, que cada ação, seja fazer compras ou andar de ônibus, é um inferno. Eu compro,então,as coisas erradas, porque não quero que as pessoas me vejam em dúvida ou pensando diante de uma prateleira. Desço no ponto errado, porque não quero que as pessoas percebam que acionei sem querer o botão de parada. Que percebam que não sei me orientar, que não sou daqui...
Mil em uma noite(s). Uma voz que não soa como um desafio. [dos olhos que me olham.] As pessoas deveriam se olhar mais nos olhos. [das bocas que me dizem.] Sinto como se já te conhecesse há anos. [dos acasos que me surpreendem.] Sem medo de ser só. Sem medo de ser. E só. [Das mulheres que me habitam e se transformam em vômito poético]
chove fora e dentro. quatro planetas em escorpião e um mercúrio que tá dançando em moon walk. o prédio impregnado de feijão queimado da família que ilustrei na imaginação: um casal heterossexual que já devem ter netos crescidos. ele cozinha pra ela. ele queima o feijão quando chove. e hoje, de fato, chove. chove dentro e fora. chove água mas não a mesma água que inunda quatro planetas com escorpião. ouvi que o retorno de saturno vai até os 33. não aguento mais 4 anos e meio disso. to virando agua igual a sheila melo.

perdendo a linha de ariadne

dando uns passos pra longe de si e não deixar migalhas no caminho e como voltar? como voltar? uma estrada de tijolos amarelos pra quem tem visto tudo em escala de cinza não serve pra muita coisa afinal pongé dentro de um oceano mas esqueci o respirador e como voltar? como ter ar? labirinto habitado por um minotauro sem linha de Ariadne não permite que se conheça o mito até o final a todo instante uma escolha que não se escolhe escolher a violência da renúncia de tudo aquilo que não é que não é que não que não é mas poderia ter sido ............

uma carta sobre morte, alívio e outras fricções da saudade

oi, obrigada por decidir ler as minhas palavras.. antes de mais nada peço desculpas pela verborragia que se segue. não consegui mais estancar a sangria das palavras que precisam escorrer boca afora. preciso confessar, vomitar, expurgar, jogar pra fora do meu corpo isso que tenho ocultado com desventura até de mim mesma.  é que eu sinto uma saudade devastadora. uma saudade devastadora que insisto em calar. com grande esforço eu a ignoro, e ela fica ali, subexistindo. ainda assim é como se a saudade tomasse forma e gritasse todas as palavras ao mesmo tempo, ou acenasse com uma bandeira de cores neon para chamar a minha atenção. o tempo todo. e quando fica insuportável, basta direcionar a mínima energia para que ela devore toda a plenitude de papel construída tão inutilmente em torno de mim de uma só vez. sem dó.  tenho tentado cometer um assassinato. e tenho me saído uma assassina completamente fracassada. preciso matar a saudade. preciso matar cada pedaço dela. por...

campo minado

a gente é khoisa de kharma se não houver pedra no caminho a gente acaba inventando só pra tropeçar mais uma vez o gesto do desgosto o gosto do desgaste um amargo engolido com prazer em uma aposta cega na ausência da gastrite os livros da prateleira são testemunhas do nosso esforço mútuo em querer quebrar carinhosamente & violentamente o muro construído na fronteira de nós muro bélico : como em Berlim voam guerras por cima dele Toma lá! Dá cá! guerra fria que por vezes esquenta  até demais 2 civis com idiomas diferentes insistindo em falar a mesma língua "Não tem por quê!" insisto em levantar bandeira de paz
a gente se repete mesmo. vez em quando tende a insistir em não se ouvir parece um looping necessário como quem decora letra de música pra deglutir poesia a frase por detrás da canção a ação por detrás da sentença da significância, da coisa mesmo desdobrar um processo é viver o processo eu digo um processo íntimo de si de si bem menorzinho

quando a memória insiste em acolher lembranças de uma outra vida

quem diria logo minha maior aposta minha maior certeza puxando meu tapete de verdades absolutas minha memoria outrora tão efêmera que um dia escorrera demasiado fácil entre meus dedos insistindo numa lembrança já gasta pelo tempo quando mais precisei do maior defeito  quando precisei daquilo que caracterizou meu eu desde que sei de mim desde de quando me percebo ~eu~ o es.que.ci.men.to evapora como se nunca fosse tão intimo a mim como se nunca tivesse existido ou  como um brincante pregando peças como bem entende a seu bel prazer -  lembrança que não se deixa esquecer  - marcada no corpo  abaixo da pele pa.ra.si.tan.do. como quem comprou casa o ontem tão hoje a imagem-memória límpida como um filme 3D como se tivesse sido ontem agora mesmo, há poucos minutos (quase da pra encostar) ah essa vida deve ser mesmo uma velhinha irônica de cabelos prateados acomodada numa poltrona enquanto faz apostas ...