"Às vezes, quando estou sentada a uma mesa, por exemplo, com amigos, ou quando estou no metrô, num domingo à tarde, por exemplo, ou diante das prateleiras do supermercado, à noite, depois do trabalho, me sobe esta raiva. Essa raiva do fato de que ninguém jamais vai saber como eu me sinto de verdade. Como é ser eu. Nunca ninguém verá minhas mãos como eu as vejo. Ninguém vai ter essa sensação, no fundo do peito, que eu tenho quando fico insegura. Aí eu sinto medo. Às vezes sinto medo do mundo lá fora. Não quero sair da minha casa. Não quero ver ninguém. Imagino, quando vou para a rua, que as pessoas ficam me olhando. Fico tão nervosa, que cada ação, seja fazer compras ou andar de ônibus, é um inferno. Eu compro,então,as coisas erradas, porque não quero que as pessoas me vejam em dúvida ou pensando diante de uma prateleira. Desço no ponto errado, porque não quero que as pessoas percebam que acionei sem querer o botão de parada. Que percebam que não sei me orientar, que não sou daqui, que não faço parte do lugar. E essa sensação.
Esse não pertencer ao lugar, ele aumenta cada vez mais. Não telefono mais para nenhum amigo, pois sei que eles têm mais o que fazer. Têm seus próprios problemas. Não querem me ouvir dizer que não me atrevo a sair de casa.Porque eu sei o que eles então vão pensar: é só fazer. Simplesmente fazer, e daí tudo funciona. E isso me paralisa. Até que eu não me atrevo mais a levantar da cama de manhã. E se alguém então ligar e me disser que gostaria de me ver, eu penso, melhor não, ou sim, claro, e então junto minhas forças e dissimulo. Para a pessoa não ver o medo que eu tenho e, sim, pensar: ela simplesmente faz, ela faz e tudo funciona. Porque é só dessas pessoas que se quer ser amigo, e não de alguém que tem medo e prefere ficar em casa a se encontrar com você. Alguém para quem o medo é mais importante do que a amizade. Eu desejo, então, morrer sozinha. Para nunca mais precisar sair. Para que as coisas todas simplesmente parem de me oprimir o peito e de tirar meu ar. Todas as coisas que eu tenho que fazer, só porque se faz. Trabalhar, tomar café, levar o computador para um café, tomar um latte machiatto, andar de bicicleta modelo holandês, comprar roupas, encontrar amigos, sair para dançar, voltar para casa de madrugada cambaleando. Queria que alguém soubesse como eu me sinto. Aí, então, eu poderia dizer a essa pessoa: eu não estou a fim de sair para dançar, simplesmente porque não estou a fim. Não quero. Prefiro ficar em casa. Aí não precisaria mentir e dizer: eu tenho que sair amanhã de manhã cedo. Que pena."
Maria Milisavljevic
Esse não pertencer ao lugar, ele aumenta cada vez mais. Não telefono mais para nenhum amigo, pois sei que eles têm mais o que fazer. Têm seus próprios problemas. Não querem me ouvir dizer que não me atrevo a sair de casa.Porque eu sei o que eles então vão pensar: é só fazer. Simplesmente fazer, e daí tudo funciona. E isso me paralisa. Até que eu não me atrevo mais a levantar da cama de manhã. E se alguém então ligar e me disser que gostaria de me ver, eu penso, melhor não, ou sim, claro, e então junto minhas forças e dissimulo. Para a pessoa não ver o medo que eu tenho e, sim, pensar: ela simplesmente faz, ela faz e tudo funciona. Porque é só dessas pessoas que se quer ser amigo, e não de alguém que tem medo e prefere ficar em casa a se encontrar com você. Alguém para quem o medo é mais importante do que a amizade. Eu desejo, então, morrer sozinha. Para nunca mais precisar sair. Para que as coisas todas simplesmente parem de me oprimir o peito e de tirar meu ar. Todas as coisas que eu tenho que fazer, só porque se faz. Trabalhar, tomar café, levar o computador para um café, tomar um latte machiatto, andar de bicicleta modelo holandês, comprar roupas, encontrar amigos, sair para dançar, voltar para casa de madrugada cambaleando. Queria que alguém soubesse como eu me sinto. Aí, então, eu poderia dizer a essa pessoa: eu não estou a fim de sair para dançar, simplesmente porque não estou a fim. Não quero. Prefiro ficar em casa. Aí não precisaria mentir e dizer: eu tenho que sair amanhã de manhã cedo. Que pena."
Maria Milisavljevic
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