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inverno arrastado

 o sol lá fora anuncia um forte verão pela frente

é domingo e como é domingo, e tem sol lá fora, as pessoas estão espalhadas pelos parques da cidade, pelo menos uma parte delas

outra parte está infurnada dentro dos vidros de um shopping com ar condicionado dando conta do calor que faz la fora e escondendo toda a paisagem que acompanha a quentura do dia

outra parte, menor, permanece em casa, por preguiça, por opção, para descansar ou para trabalhar em serviços domésticos invisíveis

já eu, estou trabalhando em uma tarefa operacional o suficiente para que eu possa escrever

em desacordo com o resto mas em acordo com uma fatia bem grande de população que trabalha em escala 6x1 

aqui, perto de um parque, vejo pessoas passando apressadas para chegarem debaixo de alguma sombra

do computador que registro a compra de livros, tortas, taças e vinhos e ciabatas dessa livraria-café, vejo vultos passeando pelas portas de vidro da loja - queria eu estar no lugar delas?

o calor não me seduz nem um pouco, a menos que diante de uma piscina ou, ainda em melhor quadro, em frente a um rio que me convida a mergulhar

mas, assim, no seco, não tenho lá muita coragem para enfrentar o suor que dias quentes trazem junto de si

acho que sou mais do inverno justamente por ser uma pessoa que, em essência, é quente demais, sensível demais, transpirada demais.

no verão eu incendeio, viro cinza, transbordo e desidrato. no inverno não. no inverno eu chego um pouco mais perto de uma omeostase sensorial.

no inverno é possível ser calor para os demais, convidar cobertores e vinhos e risotos para uma festa particular

dormir de conchinha com alguém ou com travesseiros ou com animais de estimação que nem são seus

o frio tem um não-sei-o-que de bonito, de poético, de elegante, profundo e solitário

o calor tem um com-certeza-sei de brilhante, marginal, livre, coletivo e embalado por um pandeiro

talvez eu tenha perdido a capacidade de ser mais. tenho gostado demais de estar em silêncio, de estar solitária, invernal. 

como se eu também tivesse perdido uma terceira perna, como Clarisse Lispector confessa logo no início de A Paixão Segunda G.H.. Perder algo que te impossibilitava andar mas aí, você prefere a estabilidade de um tripé do que ter que encara a gravidade com um pouco mais de seriedade.

o inverno, o rio, o ar condicionado. tudo que refresca me faz escrever. e se escrever é falar consigo não existe nada melhor para a manutenção de uma autoestima do que o diálogo íntimo. 

e é no inverno que eu consigo escutar melhor minhas vozes internas, parece ter menos barulho lá fora.

mas, contrariando todas as expectativas, esse ano, apesar do verão, tenho conversado muito comigo. entrado em acordos, desacordos, fazendo birra e aceitando realidades inegociáveis. 

de alguma forma carreguei um pouco do frio pra dentro dessa primavera.


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