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quando a memória insiste em acolher lembranças de uma outra vida

quem diria
logo minha maior aposta
minha maior certeza
puxando meu tapete de verdades absolutas

minha memoria outrora tão efêmera
que um dia escorrera demasiado fácil entre meus dedos
insistindo numa lembrança já gasta pelo tempo

quando mais precisei do maior defeito 
quando precisei daquilo que caracterizou meu eu desde que sei de mim
desde de quando me percebo ~eu~
o es.que.ci.men.to
evapora como se nunca fosse tão intimo a mim
como se nunca tivesse existido ou 
como um brincante pregando peças como bem entende
a seu bel prazer

-  lembrança que não se deixa esquecer  -
marcada no corpo 
abaixo da pele
pa.ra.si.tan.do.
como quem comprou casa

o ontem tão hoje
a imagem-memória límpida como um filme 3D
como se tivesse sido ontem
agora mesmo, há poucos minutos

(quase da pra encostar)

ah
essa vida deve ser mesmo uma velhinha irônica
de cabelos prateados
acomodada numa poltrona enquanto faz apostas com as amigas sobre o próximo capítulo da novela que ela maneja

tragicômico

já passara da hora de formatar a morada ocupada por esse parasita em forma de lembrança
afinal a casa está desocupada há tempos

é como um membro fantasma:
(uma perna amputada é sentida perfeitamente
ainda que não mais exista concretamente)
é como uma memória-fantasma

hora de abrir as janelas para o sol entrar
exorcizar fantasmas de um tempo que passou
para, quem sabe
um dia
pendurar feliz a placa de aluga-se


tragicômico de verdade
quando a memória insiste em acolher lembranças de uma outra vida

quase não dói mais


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