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Mostrando postagens de 2012

Cena Y.

Uma sala com quatro poltronas coloridas. A poltrona escarlate fica atrás, à esquerda e a azul-marinho, à direita. Na frente, da esquerda para a direita, respectivamente estão, as poltronas amarela (e essa é a de pior aparência) e a poltrona verde. Charlotte está no meio da sala fumando um cigarro com uma aparência desgrenhada. Milan está sentado na poltrona escarlate, olhando fixamente para um espelho de mão que segura firmemente. Entra Bárbara falando compulsivamente remexendo sacolas de lojas. Tem uma aparência agradável aos olhos comuns e teria futuro nas passarelas se não tivesse uma cicatriz rasgando sua bochecha corada. Faz questão em exaltar o “resto” (o que não é cicatriz) bonito. BARBARA: Eu realmente não posso acreditar que as pessoas ainda são tão mal educadas. Em pleno século XXI!É desprezível que não se possa confiar no chofer. Eu me pergunto o que Oliver anda aprontando com o chofer depois que o mandei buscar os medicamentos para Milan. (Vê Charlotte e paral...

Da desistência.

Gosto de conversar no escuro. A luz embaça completamente o portfólio colorido de ideias que pinta minha mente. Gosto mesmo do escuro. As ideias dançam ao som da escuridão. Gosto de escrever. E escrever cuspindo as palavras, como vômito, de uma só vez e sem correção. Porque o bonito da vida mesmo é a capacidade de intensidade dos clímax improvisados do dia-a-dia. E às favas com os erros. E, a propósito, quem disse que há uma fórmula? Que há uma constituição dizendo o que é certo e errado na arte. Não há como definir. Não tem como descrever. Desista. É, desista. Ao invés de tentar e tentar compulsivamente encaixar as ações e os pensamentos em prateleiras do sebo do lugar-comum, desista. Só depois de se reconhecer como nada, e não tentar mais nada é que começará a fazer sentido. (Pausa.) Alguém pode apagar a luz? Eu já comentei antes que eu prefiro conversar no escuro. No escuro tudo o que resta são silhuetas e sombras. E as ideias não precisam ter dono....

A efemeridade do encontro da lua e do sol no céu escarlate de uma segunda-feira

Segundo o que se sabia, não poderia existir tal encontro. De um lado o sol, iluminando toda a superfície que os seus raios alcançam, como faz dia após dia. Do outro, a lua, singela na sua frieza e beleza noturna, invadindo o espaço estranho diurno. Juntos os dois astros opostos apostam numa possível combinação. O destino irônico separou-os deixando para cada um a metade do que existe de tempo na vida. A intensidade do sol, sem perceber, persuadiu a lua a sair do seu conforto habitual hoje. O satélite natural saiu da sua comodidade para desfrutar do calor tão atraente e único que aquele Deus Amarelo-ouro brilhante proporciona. E o sol, abismado com a beleza da lua: aquela mancha branca perfeita e delineada desenhada sobre o cenário do infinito. Por um momento a lua esquece que já pertenceu à noite, e o sol não percebe estar iluminando o mundo, mas simplesmente continua a brilhar, admirada pela beleza lunar. Os dois ficam contemplando a beleza um do outro, apaixonados pela diferença lind...

Manjado ciclo novo.

Novas caras estampando a capa da caixa preta. Sorrisos escondidos, amarelos, interrogando em silêncio sobre a história já escrita. Palavras ensaiadas saindo em cor monocromática, com pequenos nuances de tom para disfarçar a atmosfera robótica. Descontração na contração do parto da moralidade. Dissociação da homogeneidade e fluidez, do fluxo das relações. Olhos desatentos no atentado do mau uso da palavra, da banalização de pontos de vista, do falso moralismo, das rugas abertas à fórceps. Ansiedade, o mau do século. A insegurança se mascara em meio ao tumulto e a fuligem das informações simultâneas. Coça a boca; se abana; ajeita-se no assento. Tira o plástico de proteção do relógio novo (bem mais moderno que o antigo); estala os dedos. Estala o chão. Ter cuidado para não piscar por mais tempo que o permitido. Para a Peste do Pestanejo não há vacina, tratamento, cura ou compaixão. O açoite é certo. A dor do golpe permanece por algum tempo, às vezes por tempo indeterminado, ...