senti um arranhão em alto relevo nas minhas costas e me perguntei se ele foi feito na nossa última noite. tudo me pareceu tão cru e intenso dentro da escuridão do teu quarto que não posso me dar certeza se é daí que vem a nova cicatriz. mas o fato é que ela tá aqui. essa e as cicatrizes invisíveis que ficaram pós-nós. porque foram noites de abrir feridas, de ajudar a lambê-las e se ver uma na outra. noites de ficar tão nua quanto se pode estar diante de alguém, e não estou falando só no sentido literal da coisa.
esse novo arranhão que tatua minha pele representa, dentre várias coisas indizíveis, a possibilidade do sentir. porque ainda dois minutos antes da gente acontecer daquela forma eu não achava que pudesse sentir uma conexão tão forte novamente. me via apática e desesperançosa. não sei como a química do meu corpo mudou tão de repente. foi te tocar para que tudo simplesmente virasse de cabeça pra baixo.
acho, na verdade, q a gente nunca havia se tocado antes do choque. não lembro de um abraço de verdade ou carinho antes daquilo. tudo entre nós era tão superficial, tão permeado por histórias e cerveja que não deixamos tempo ou espaço para o toque. nunca desconfiei que o tato, sentido tão óbvio nas relações de amizade, era preterido na nossa conexão. mas foi justamente ele acontecer para que uma revolução acontecesse dentro de ti e dentro de mim e que a gente abrisse a janela para uma nova paisagem possível. foi só te tocar.
a explosão diante do simples toque foi irrefreável, irreprimível, irresistível. um desconhecido familiar e hipnótico se apresentou pra mim como uma avalanche. me deixei levar. desfrutei de cada passo daquela dança insana e animalesca que coreografamos juntas nos teus lençóis..as nossas noites foram como se houvesse uma conexão entre carnes vivas e pulsantes, sangue escorrendo no lençol, dois animais se reconhecendo através do que flui do corpo. sangue suor lagrimas.
agora estou aqui sentindo a textura de um arranhão e escrevendo esse texto que não vou te mostrar. só precisava dizer pra mim mesma que, apesar de saber que não vamos viver mais noites como aquelas, eu sou muito grata por ter acontecido. porque me mostrou que eu continuo viva e pulsante e que a vida pode me surpreender muito. que ainda tenho energia suficiente para produzir um bigbang.
me sinto pronta para novas explosões. obrigada por ter sido inflamável comigo.
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