"Às vezes, quando estou sentada a uma mesa, por exemplo, com amigos, ou quando estou no metrô, num domingo à tarde, por exemplo, ou diante das prateleiras do supermercado, à noite, depois do trabalho, me sobe esta raiva. Essa raiva do fato de que ninguém jamais vai saber como eu me sinto de verdade. Como é ser eu. Nunca ninguém verá minhas mãos como eu as vejo. Ninguém vai ter essa sensação, no fundo do peito, que eu tenho quando fico insegura. Aí eu sinto medo. Às vezes sinto medo do mundo lá fora. Não quero sair da minha casa. Não quero ver ninguém. Imagino, quando vou para a rua, que as pessoas ficam me olhando. Fico tão nervosa, que cada ação, seja fazer compras ou andar de ônibus, é um inferno. Eu compro,então,as coisas erradas, porque não quero que as pessoas me vejam em dúvida ou pensando diante de uma prateleira. Desço no ponto errado, porque não quero que as pessoas percebam que acionei sem querer o botão de parada. Que percebam que não sei me orientar, que não sou daqui...