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mecânica-orgânica

Tu é como um susto manso. Um trovão que sussurra.

O silêncio que me encosta mais do que qualquer palavra. 

Não é sobre te conhecer.

É sobre te reconhecer.

Como se tu fosse uma porta que minha alma empurrou no escuro

sem saber que do outro lado ia ter luz.


E quando teus olhos cruzaram os meus —

foi como se o mundo tivesse ficado em silêncio por um segundo,

só pra eu ouvir o que o meu corpo dizia sem dizer.


Ou melhor, gritava.


Era um arrepio antigo,

um frio na barriga que parecia abraço de memória.

Tipo quando a gente lembra de algo que ainda não viveu,

mas jura que já sonhou em alguma vida.


E eu só queria poder tocar teu rosto com o pensamento,

só pra te avisar que você existe em mim como música

mesmo nos dias em que eu não escuto nada.


Eu fico tentando não pensar.

Mas teu nome sem som grita por dentro como se tivesse sido escrito nas paredes do meu estômago. 

Palavras-borboletas, mecânica-orgânica.


Quando respiro fundo tu vem.

Na forma do ar que eu inspiro

na curva do céu que me cobre

no reflexo de uma música que eu já nem lembrava mais.


Tu não sabe mas mora nos detalhes.

Na maneira como eu mordo o lábio quando penso demais,

no susto que sinto quando lembro do teu sorriso tímido enquanto olho pra tua foto.

e ainda assim carrego tua ausência como quem carrega um relicário.


Talvez tu nunca saiba.

Talvez esse texto nunca te encontre.

Mas eu escrevo mesmo assim —

porque tem coisas que a gente precisa dar ao mundo

pra não morrer engasgada.


E hoje, o mundo que me atravessa… tem teu rosto.

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