Pular para o conteúdo principal

HI A TO


É impressionante o quanto esta sala é pequena.
Ou será eu que não caibo aqui?
Me parece tão pequena... Abarrotada de desnessidades.
A estante recheada de livros não lidos;
A poltrona cuidadosamente colocada ao lado do abajur herdado da tia Nair;

O livro ainda marcado na página 144;
O sofá
e eu aqui
em desacordo com todo o resto

Sinto cheiro de café mas não tenho bem certeza se é manhã. O relógio fixado na parede ainda marca 11h16. Foi quando ele parou de funcionar, me lembro. Me lembro do dia. Não sei se foi ontem ou semana passada.
Que dia é hoje mesmo? Não consigo me lembrar. Acho que hoje é... hoje...Isso! Deve ser hoje, hoje. E deve fazer sol lá fora, porque hoje está sendo hoje.
Eu abriria as janelas mas elas emperraram. Da última vez não consegui abrir apesar de forçar durante uns minutos e ralar minhas mãos tentando. Já faz tempo. Quanto tempo eu não sei precisar, mas quando pensei no tempo que eu estava me esforçando para saber sobre o tempo era 11h16, se não me engano. Ou perto disso. Mas a cicatriz ainda tá aqui impedindo uma leitura de quiromancia.

Ao lado do livro abandonado na página 144 costumava ter um maço de cigarros... Ah sim, eu parei de fumar. Mas não sei se a falta de cigarros se dá porque eu parei de fumar ou eu parei de fumar porque eles acabaram. Aposto que é uma das duas opções. Aposto que é. Deve ser. Mas tanto melhor assim, já não recordo o sabor amargo dos cigarros nos lábios. Aliás, nem me recordo tão bem dos meus próprios lábios. Sinto-os grossos na parte inferior e médios na superior. Devem ainda ser bonitos, porque o eram, eram sim. Tia Nair me chamava de Beiçuda, disso eu lembro. Beiçudinha da titia, naquele tempo longínquo em que os ponteiros do relógio ainda dançavam. No tempo que existiam espelhos generosos e não distorcidos.
Não vejo a hora que chegue a hora depois dessa hora cravada no relógio. Vou fixar o meu olhar nele até isso acontecer. Me pergunto se ele marca 11h16 porque é o agora, a horainstantemomento que eu falo essas palavras ou porque o agora de ontem insiste em permanecer existindo ecoando através da hipótese concretizada de congelar o tempo. talvez eu esteja aqui há semanas olhando pro relógio de 12 em 12 horas exatas. Isso explica 11h16. É, deve ser isso.
(PAUSA)
Não, o relógio deve ter parado... Eu lembro que ele parou.

Mas, e se o relógio não parou e que parou fui eu? Pode ter acabado a pilha. A do relógio, ou a minha...
O que possivelmente acontece são esses saltos de consciência.. com certeza é isso. Uma vez li algo sobre em algum lugar. Como lapsos. Hiatos entre uma e outra memória. O que me faz pensar se não sou eu que vivendo tão absorta pelo piloto automático, que olho para o relógio apenas uma vez ao dia, exatamente no mesmo horário, todos os dias de todas as semanas de todos os meses de todos os anos. Às 11h16, nesse momento do dia que eu sempre estou exatamente aqui, nessa sala, olhando para as mesmas paredes para os mesmos livros não-lidos ou lidos até a página 144 e para o mesmo relógio...

Essa casa está tão diferente do que já foi, quando haviam crianças - crianças sempre enchem uma casa, sempre bagunçam tudo e alegram também. Alegram bagunçando. Tenho lembrança dessas risadas de crianças e da beiçudinha da titia que morava aqui e não sei pra onde foi. Ela era tão bonita. Eu a chamava assim naquele tempo. Acabo de lembrar. Beiçudinha da titia... tudo mudou e não sei quanto tempo dormi se é que dormi ou apenas pisquei...ao mesmo tempo a casa está tão absolutamente igual ao que ela tem sido nos últimos diasmesesanosjánãoseiprecisaraocerto11e16.144.999
Preciso tomar um gole de água e comer alguma coisa. Não lembro da última vez que comi. Ou comi sem perceber porque estava comendo, porque fazia qualquer outra coisa ao mesmo tempo. Talvez olhando para o relógio.
(PAUSA)
.
.
.
.
.
Que dia é hoje?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Pró-cura de si por si  ensimesmando-se dentro dissignificando significados e ângulos retos procura-se  obstusidades significâncias perspectivas de obscuridade visão oblíqua cavando-se bifurcações de verdades absolutas processos in destruction nos braços da transgressão do que não se vê do que está por dentro do contorno . o avesso do avesso do verso ego é oge ...

Só sei que nadar sei

Você e esses seus olhos marejados-marejantes convite para entrar e molhar os pés na sua íris Você e esses seus cachos espiralados-espiralantes chamado para invadir e pular as sete ondas dos seus cabelos Mas eu não sou de beiradas, afinal O oceano do seu ser me convoca a imergir naufragar afundar parar para respirar nas suas ilhas e morar um pouco em cada uma delas Descansar no tronco do seu corpo-árvore quando o céu da boca estiver cospindo estrelas para sua pele  Sonoridade celeste Que faz desvendar as constelações pintadas na epiderme À deriva  nada sincronizada A maré Já não sei saber Só deixar levar  Pelo repuxo de um mar profundo , revolto Que eu desejo me afogar E ser reanimada pelo mesmo mar Que me mostra que o horizonte ainda risca à nossa frente V olto a mergulhar Só sei que nadar sei

Marielle Presente

sinto as dores fortes do parto parindo milhares delas juntas sangrando 9 meses bem agora jorro que escorre nas coxas de todas nós dos olhos de todas nós parindo mil mortes sentindo a dor daquilo que nasce em óbito cólica que revira útero explodindo jorrando o sangue implorando o vômito de tanta dor enquanto a lua mingua em peixes lá no alto minguam milhares de sereias aqui embaixo sinto todas vocês em mim mitológicas bruxas ancestrais: mulheres sentem dor em manada eles não podem calar nosso uivo