estou farta de palavras sobrecarregadas de cálculos e de significações que balançam perdidas paragens da linguagem tagarela e sem conteúdo. preciso do silêncio, do sótão da língua, de onde já não se tem mais convenções só esfregões de corpos, de pensamentos avermelhados convulsivos dispostos no corpo em milhares de contorções suspiros ruídos. do sótão da língua se ouve alguém que chora, que se debate sobre si mesmo, esbarra com a fera dobrando-se, mais um, muitos. é daqui da onde agarro a fera e as serpentes trocam de pele. a casa cai toda espatifada em mil pedaços_cristal lúcido e insano troca tudo de lugar, faz ver as fragilidades todas da mulher que não é maravilha, que é carne, que é osso, puro fluxo vermelho reflexo de vida louca. embaixo da roupa sente os instantes instintos todos abaixo do umbigo cortado sufocado. isolada dissipada. quando acorda murcha inteira ao lembrar que não disse nada a sua avó materna, aquela que a rejeitara e depois a olhava de canto pois eram evidentes as lembranças semelhanças velhos habitos engessados em um corpo que engordou para não desaparecer. sem palavras, elas não dão conta das lembranças, das miragens todas, das imagens borrões que me saltam pelos olhos cheios de sombras, de fados suspensos na ponte. as asas estão adormecidas nela no entanto existe como quem se arrisca e sabe que é chegada a hora de parar de falar, de soltar o grito e a fome. ser bicho solto, animal de rapina, liberar os ruídos do porão, ser medula e osso, sonho e desejo, chocar-se contra si, romper com a representação, ligeira como quem dança no ritmo, no entremeio das coisas viçosas que não tem forma, do que não tem lógica e é intenso, pura voz amaciada no tempo, enrodilhada no soluço, no salto. robusta viva ladina, pertinente sagaz, fotograma poético tornado ato, leão com juba solta irriquieta, volátil impregnada de carisma.
( SEHN, Carina. Um Corpo Performático Para Romper com a Representação. Porto Alegre: Repositório Digital UFRGS 2014 )

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