.agora essa música me faz lembrar do futuro. me fez lembrar bem agora, numa sorte ou revés do aleatório do spotify. o som dentro dos ouvidos. on the road. a roda que gira no asfalto ainda quente nesse cair de noite que nunca chega. o sol viveu um eclipse parcial hoje que não conseguimos ver desse canto latino, mas deu pra sentir. se deu. inspiro e expiro na tentativa de entender esse não-lugar que faz os km passarem por debaixo dos meus pés flutuantes e descansados no estofado de um desconhecido. na janela: uma pintura futurista e quase lisérgica que não congela nunca. eu tento fotografar com os olhos algum fragmento de todas essas árvores apressadas que correm para um passado geográfico: concreto e fictício, ao mesmo tempo. deixar pra trás. estou zombando das dores. das minhas das tuas e das dos outros dois ou quatro ou que sejam mais. porque o vento continua existindo com ou sem dor na lombar ou de uma sinusite que não foi convidada. porque ela nunca é bem-vinda mas vem ensinar a pausar. e o tempo continua passando junto com as árvores e os cabelos continuam crescendo mesmo que a gente não perceba. já tenho 4 cabelos brancos e o fio da existência aqui é tão tênue, tão invisível e brutal quanto tudo aquilo que não se pode entender mas se morre tentando. é nesse fluxo que a gente chega em outro Estado. é nesse fluxo que a gente chega em outro estado. vá por aí evaporar. tudo é doido nessa vida, Ramil. é sim. a gente percorre tantos km geográficos e outros tantos km metafóricos: estou inventando polegadas pra atravessar um deserto de mim. navegar é impreciso, preciso de ornamentar minhas asas.
era fim de tarde ou começo de alguma coragem as portas ficam a 20cm de se fechar quando um braço tatuado interrompe o movimento e ai você já não era mais só nem ele. duas presenças no mesmo quadrado de ar rarefeito e o tempo suspenso você segurava palavras como quem carrega uma xícara cheia cada sílaba tremia no pires do peito mas mesmo assim falou. falou da cicatriz. da piada inventada na copa aobre um urso que causou a cicatriz da moto, da sexta-feira. coisas pequenas que encobrem um coração escancarado. ele estava mais solto do que a última vez como se soubesse que ali dentro morava um perigo bom. e você, estava inteira. tensa. viva. completamente fascinada pelo instante. era só um elevador... alguns podem dizer. mas a verdade é que todo mundo sabe que os grandes encontros moram nos menores espaços.
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