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Vôo 1909

 
 
 
 
A gente nunca tinha viajado juntos.
Não...a gente nunca tinha VOADO juntos.
Ele dizia que dava azar e que tinha lido isso numa mensagem de um biscoito chinês, no restaurante que a gente se conheceu em Frankfurt. E ele gravou isso de uma forma que.
Passamos a viajar sempre separados e, inclusive, nos encontrar com placas de carinho no aeroporto, como se a espera tivesse sido de semanas e não de minutos ou horas.
Era assim: Separados no céu. Juntos na terra.
Mas dessa vez sim. Dessa vez voamos.
Insisti em semanas na improbabilidade de uma mensagem de um biscoito da sorte aleatório decretar a desgraça da nossa presença una no céu. E, enfim, ele topou.
Logo quando chegamos ele estava bem nervoso.
Brigamos com a aeromoça nos primeiros cinco minutos por conta de uma primeira classe com problemas que nos jogou para classe econômica. Não quis fazer caso: agarrei ele pela mão conduzindo para os assentos, enquanto balbuciava alguma ofensa para a moça que não tinha culpa de nada e apenas olhava, com os olhos arregalados, pedindo desculpas.
Falei pra ele o quanto a gente não podia estragar o nosso primeiro voo juntos. Que ele estava somatizando a porra de um biscoito da sorte e, afinal de contas, tinham nos dado assentos na janela, e a gente nunca tinha viajado em primeira classe mesmo. Ficaria para a próxima.
Ele estava bastante nervoso.
Sentamos e apertamos o cinto. Olho para minha janela e vejo a asa riscando a paisagem, a dividindo em dois quadros. Branca, impávida, asa de um pássaro de metal.
Ela disse
“...Nós já fechamos as portas portanto todos os equipamentos eletrônicos devem estar desligados. Pedimos que afivelem os cintos e deixem a poltrona na posição vertical…" Ela disse
"Em caso de despressurização máscaras de oxigênio cairão automaticamente.”
O avião decola e ele esmaga meus dedos que estavam pousados no braço da poltrona.
Ele estava nervoso.
Desde o embarque. Nervoso. Desde o biscoito. Nervoso.
Eu estava começando a ficar apreensiva também, quando a aeromoça, a mesma dos olhos esbugalhados, passou constrangida oferecendo lanche.
Peguei um de cada. Precisava engolir a apreensão que ele me passava pela respiração.
Comi de uma só vez as balas de goma coloridas em formato de avião e tomei um gole do refrigerante diet. Ele pegou a batata frita e comeu uma em três mordidas vagarosas. Me olhou enquanto me fartava de glicose e fez um som estranho, me julgando.
Eu olhei pra ele. Olhei pros dois olhos amendoados dele, e cantei a música que tocava no nosso primeiro beijo.
“Um planeta tão distinto
Que encontrei na minha cama
De manhã roxo azul
O céu a olho nu
A tua órbita infrequente
O seu texto desmedido
Quarenta e dois motivos para estar onde não estou”
TURBULÊNCIA.
Eu falei! Ele disse. Eu não queria viajar contigo! Ele disse.
Apertei forte o braço da poltrona. Sabia que era normal; eu já tinha passado por uma turbulência antes. Não como essa, mas já ouvi muitas histórias sobre fortes turbulências nas minhas viagens sem ele.
Um idiota de cabelo lambido da frente da minha poltrona passou a fazer piada com quem estava com medo e assustou ainda mais a criança do lado dele. Idiota.
Depois de um minuto que pareceu uma hora o avião ficou estabilizado. Eu pude ouvir o coração dele batendo forte enquanto a gente suspirava juntos, aliviados.
BAM BAM
Dois “bans” e aquela máquina gigante recheada de gente de todo o lugar do mundo começa a saculejar ainda mais que na primeira vez.
Uma mala azul cai do bagageiro e acerta na cabeça do babaca de cabelo lambido e eu acho que ele desmaia.
A criança grita com todas as forças mas a voz dela se perde em meio ao desespero ensurdecedor dos adultos.
Outras bagagens começam a cair na cabeça e na cara e no peito das pessoas e o avião começa a sacudir como um barco Vicking num parque de diversões só que aqui sem parque e definitivamente sem diversão.
BAM BAM
Outros dois bans ou foram 4 ou não sei
E as luzes começam a piscar como um strobo em uma festa de trance. Só que sem strobo, sem festa e sem trance.
Queria estar drogada!
O idiota de cabelo lambido não fez mais piada por quê?
Queria bater nele.
É culpa dele. Eu disse.
É culpa do biscoito. Ele disse.
É culpa tua!
As máscaras de oxigênio caíram automaticamente. É caso de despressurização. Eu nem mesmo sei o que é despressurização.
Então, coloquei a máscara.
A umas seis poltronas a frente vejo uma faísca como se produzido por um maçarico. Nunca olhei para faisca de um maçarico: sempre acreditei na história que ficaria cega ao olhar. Decidi fechar os olhos.
Tentei cantar a nossa música de novo.
Gritos Gritos Gritos ensurdecedores.
Um pedaço de metal daquela máquina monstruosa se descola como se fosse papel rasgado.
Eu vi. Vi quando aquele idiota de cabelo lambido levantou da poltrona e saiu voando pela força do vento na porta aberta do avião.
Eu não pedi isso.
Eu não quis.
Um barulho muito alto, algo explode. Meu ouvido tranca pela pressão.
Eu olho pra ele e ele está chorando.
Olho pra minha janela e a asa, aquela mesma asa que fragmentava a paisagem, não está mais lá.
Eu sei que vou morrer.
Eu encosto meu peito no dele e aperto forte contra meu corpo, cada vez mais afundado num calor infernal. Eu canto a nossa música enquanto o calor da explosão invade nosso corpo e faz fundir nossas almas.
“Aaaaai, quisera eu estar ainda no teu tom
Por tuas curvas tuas ondas sempre som
Você silêncio”

Comentários

  1. "To die by your side... well the pleasure and the privilege is mine.." A tua lembrança tem gosto doce! Saudade da tua luz ilumando o fim da tarde, efêmera... :) Feliz por tudo que ficou, N. Hamburguer.

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