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Clichê número 2016


Tô querendo falar de amor. Há um tempo eu quero falar.
F A L A R R R R
Mas a voz não sai.
Eu coloco a energia necessária para haver som saindo da minha boca em forma de palavras, mas algo acontece no caminho do dizer e a voz não sai.
Seleciono as minhas palavras preferidas do dicionário para organizar o que quero falar de uma maneira que concorde com o indizível dos meus pensamentos, mas a voz insiste em sair muda.
As palavras que seleciono cuidadosamente rebatem em cada um dos cantos do meu corpo, por baixo da epiderme, ecoam e se perdem no caminho da boca.
Não tenho mais voz para o amor.
Ou me calei depois de tanto me deparar com ouvidos surdos para ele.
Porque ainda há ouvidos, é verdade - há ouvidos abertos para falar de encantamento, de trocas pontuais de suor & poesia, que se encerram em si mesmas tal como uma peça de teatro ou uma brincadeira que enjoa antes mesmo de começar.
Fico pensando quantos alguéns, dentre esses 6 bilhões de almassolitáriasfadadasaotouchscreen no mundo, que pense como eu e queira falar. E se depare também com os ouvidos surdos e se emudeça. E duvide da sua própria vontade e da pré-disposição para o amor.
Tô querendo falar de amor, mas não dá.
Não dá.

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