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Dodecafonia [part 1]

(LUZ DE UM SOL QUE ESCAPA POR DETRÁS DO CONCRETO)

Ela já não sabia que horas era. Era dia, é verdade. Sabe disso porque consegue sentir o calor do sol queimando parte do seu corpo colocado desajeitado no meio da cama. A luz havia estado ligada toda a noite. O telefone toca no andar de baixo. Ela escuta. Não esboça reação. 
- "Deve ser umas 10 da manhã", pensou enquanto acendia o cigarro.
Apesar de estar nesse lugar, nesse hipotético lugar, onde não se tem muito controle dos pensamentos, ela escuta também a vida na rua:
- saltos decididos indo para a esquerda;
- sirene ao longe;
- Furadeira no concreto (As furadas na parede se davam de dois em dois segundos)

O pensamento vaga longe. A uns 12 quilômetros talvez. É por estar nesse lugar. Nesse hipotético e tão concreto lugar onde não se tem muito controle dos pensamentos.
- "Isso é obsessão"; julga.
Obsessão que aos 16 anos poderia tranquilamente ser definida como paixão. Já faz tempo que não tem mais 16.
- "Pra onde foi minha inocência?", dá uma bela tragada de tabaco e o apaga na beira da janela do quarto.
Se volta para o espelho.

(BLACKOUT)

"Olha,
queria te falar.
Que cada instante depois daquele instante passou a ser um só instante
E que eu não quis isso. 
Talvez eu tenha querido. Eu quis um pouco. A gente se põe a querer quando a coisa parece improvável. É divertido navegar os pensamentos na possibilidade da paixão.
Mas 
a medida que eu ia mergulhando nos teus olhos, 
nos teus pelos, 
nas tuas sardas, 
nos teus acordes,
eu me vi deitada no aconchego dos teus poros. Inerte.
E agora estou nesse lugar. Esse hipotético, concreto e subjetivo lugar onde não se tem nenhum controle dos pensamentos."

(LUZ DE UM SOL QUASE A PINO NA RUA, QUASE SUMINDO NO QUARTO)

Ela arruma o quarto com mais um tabaco na boca. Estende o lençol na cama e olha fixamente para o smartphone, na mesa. Encara o aparelho. Encara. Encara. 
O tempo se dilata. 
Volta o ar pros pulmões.
"Eu consigo pegar o celular com 12 movimentos. Talvez menos." Se desafia. 
1. 2. 3. 4. 5. 6.

(PROJEÇÃO COM A IMAGEM DO TELEFONE)

Fundo de tela de uma obra de Leon Ferrari.
Vai até o chat.
Abre a conversa.
Escreve.
EuAPAGA OiiiAPAGA Bom dia pra você! SaudAPAGA
(PAUSA)
Só passei prAPAGA Escutei um som e lemAPAGA
Volta. Volta. Volta. Bloqueia a tela.

(FOCO FECHADO NA CAMA)

Se vê o smartphone caindo em cima da cama. De fora do foco ela o encara mais uma vez. Como se o culpasse de todo o mal estar que ela passou a sentir nas últimas semanas.
De súbito, se atira na cama e volta a enterrar o corpo de maneira desajeitada, da mesma maneira que estava as 10 da manhã, quando o sol no seu ombro a lembrou que já era dia e os cigarros estavam quase no fim.

(BLACKOUT)

...

[CONTINUA]








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