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Me sinto “estranhamente entusiasmada; um tipo simulado de entusiasmo, porque não estou possuída por um deus externo, mas possuída por mim mesma, jorro a mim mesma, me transbordo. Deserdada e erradia, enferma de mim mesma, em mim me encho e logo se esvai, num fluxo constante. (...) Incapaz de ser obediência, rebelde, imoral, licenciosa, transgressora, não viso a imortalidade; sou perecível, corruptível, portanto, desvaneço e morro.
Sou como uma espécie perturbadora das divindades, como os deuses dionisíacos, ou a própria matéria, o objeto, a coisa, ganhando vida através dessa existência não-controlável e desordenada da imagem eletrônica. 
Seguindo os meandros da vida, diacrônica e atópica, conto histórias, fragmentos de histórias, realizando um remix da memória, no qual me invento e reinvento a história, e crio a memória, a partir da enlace com outras memórias e histórias. Sou objeto e evento erótico, manuseável, lascivo, errante. E nesta minha maleabilidade reside minha indomável natureza.”

(A voluptuosa pele do ecrã, do mestre Mesac Silveira​)

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2x2

era fim de tarde ou começo de alguma coragem as portas ficam a 20cm de se fechar quando um braço tatuado interrompe o movimento  e ai você já não era mais só nem ele. duas presenças no mesmo quadrado de ar rarefeito e o tempo suspenso você segurava palavras como quem carrega uma xícara cheia cada sílaba tremia no pires do peito mas mesmo assim falou. falou da cicatriz. da piada inventada na copa aobre um urso que causou a cicatriz da moto, da sexta-feira. coisas pequenas que encobrem um coração escancarado. ele estava mais solto do que a última vez como se soubesse que ali dentro morava um perigo bom. e você, estava inteira. tensa. viva. completamente fascinada pelo instante. era só um elevador... alguns podem dizer. mas a verdade é que  todo mundo sabe que  os grandes encontros moram nos menores espaços.

Vôo 1909

        A gente nunca tinha viajado juntos. Não...a gente nunca tinha VOADO juntos. Ele dizia que dava azar e que tinha lido isso numa mensagem de um biscoito chinês, no restaurante que a gente se conheceu em Frankfurt. E ele gravou isso de uma forma que. Passamos a viajar sempre separados e, inclusive, nos encontrar com placas de carinho no aeroporto, como se a espera tivesse sido de semanas e não de minutos ou horas. Era assim: Separados no céu. Juntos na terra. Mas dessa vez sim. Dessa vez voamos. Insisti em semanas na improbabilidade de uma mensagem de um biscoito da sorte aleatório decretar a desgraça da nossa presença una no céu. E, enfim, ele topou. Logo quando chegamos ele estava bem nervoso. Brigamos com a aeromoça nos primeiros cinco minutos por conta de uma primeira classe com problemas que nos jogou para classe econômica. Não quis fazer caso: agarrei ele pela mão conduzindo para os assentos, enquanto balbuciava ...

pretérito (im)perfeito

e a gente se encontrava e se abraçava forte como se fosse virar uma coisa só e passava os dias e a gente sentia saudade e a gente cozinhava juntas  e eu fazia hamburgers e trufas e tu fazia pizzas e bolos e a gente comia assistindo qualquer coisa que fosse possível maratonar e a gente pedalava juntas sentindo o vento na cara  e a gente dava muita risada dos outros, da gente, da vida e a gente vestia roupas combinando porque o cliché só é cliché porque de certa forma faz sentido e quando chegasse a noite a gente se acomodava na cama conchinha maior depois menor e depois a gente encontrava um novo encaixe pra 2 corpos na horizontal e de manhã a gente sorria feliz de se escolher mais um dia porque nesse faz-de-conta a gente queria a mesma coisa