Pular para o conteúdo principal

Cena Y.


Uma sala com quatro poltronas coloridas. A poltrona escarlate fica atrás, à esquerda e a azul-marinho, à direita. Na frente, da esquerda para a direita, respectivamente estão, as poltronas amarela (e essa é a de pior aparência) e a poltrona verde.
Charlotte está no meio da sala fumando um cigarro com uma aparência desgrenhada.
Milan está sentado na poltrona escarlate, olhando fixamente para um espelho de mão que segura firmemente.
Entra Bárbara falando compulsivamente remexendo sacolas de lojas. Tem uma aparência agradável aos olhos comuns e teria futuro nas passarelas se não tivesse uma cicatriz rasgando sua bochecha corada. Faz questão em exaltar o “resto” (o que não é cicatriz) bonito.

BARBARA: Eu realmente não posso acreditar que as pessoas ainda são tão mal educadas. Em pleno século XXI!É desprezível que não se possa confiar no chofer. Eu me pergunto o que Oliver anda aprontando com o chofer depois que o mandei buscar os medicamentos para Milan. (Vê Charlotte e paralisa.) Cha-lot-te. O q-q-que é isso??
CHARLOTTE: Olha, Bárbara, escuta.
BARBARA: Eu não sei por que, depois de aparecer descabelada nessa manhã de quarta-feira,  você ainda quer ser levada a sério. Sinceramente...
CHARLOTTE: Eu tinha esquecido o quanto o mundo podia ser incrível quando eu deixo de pentear meus cabelos.
BARBARA: Mas aqui você deve pentear-se. E você sabe bem disso! Se está aqui é porque quer.
CHARLOTTE: Não estou criticando ninguém! Eu acho o ato de pentear-se maravilhoso. Há quem seja muito feliz se penteando. Eu mesma diversas vezes me vi feliz penteada. Mas eu não conseguia me olhar de verdade. No espelho, na vida.  Entende?
BARBARA: Lotte, não fale bobagens! Vá logo se pentear antes que todos a vejam!
CHARLOTTE: Oliver me disse que ia raspar a cabeça. Disse que cansou de se pentear e que está mandando todos pentear macacos.  Disse ainda que tinha cansado de fios no topo da cabeça. E que havia começado a coçar a cabeça compulsivamente há alguns dias, não sei bem o que é. Talvez uma alergia a cabelos. Aliás, é engraçado pensar que justo Oliver, que tanto tinha tara por escovas e pentes, vai raspar a cabeça.
BARBARA: Engraçado alguém careca, Charlotte? Você realmente acha que isso é divertido? (Para Milan:) Me traga o pente, sim querido?
CHARLOTTE:  Não traga nada, Milan! (para Barbara:) O que há de errado? Acho que ele pode ser infinitamente feliz calvo (acredito nisso de verdade!) E me parece engraçado. É engraçado pensar nessa mudança, na proporção dessa mudança. Quando eu estava no colegial, uma mudança radical significava que você havia virado hippie, punk, anarquista, batuqueiro, comunista. Mas os exemplos do colegial não chegam aos pés do que está acontecendo agora com Oliver, e talvez também aconteça comigo! Oliver vai cortar os cabelos! E isso é engraçado. Eu sinto vontade de gargalhar pensando nisso e girar no meio da sala. E essa minha reação me foi assustadora no início. Não pense você que me foi agradável. Oliver me fez perceber que preciso parar de me pentear. É simples, mas é complexo. Está nítido. Queria que você também pudesse ver.
BARBARA: Pegue o pente, Milan! (para Charlotte:) Você tá começando a me assustar, Charlotte!
(Charlotte começa a rodar e bagunçar os cabelos, gargalhando.)
CHARLOTTE: É isso, Bárbara. É isso! Vou ficar descabelada! E não adianta você implorar porque eu não vou mais usar pentes. Não vou!
(Bárbara pega Charlotte pelos braços e a senta na poltrona verde)
BARBARA: Se não é por bem é por mal. Já pensou no desgosto que causará  em todos aqui?
CHARLOTTE: Desgosto? Bárbara, eu só não vou pentear os cabelos. Existem provas que comprovem o pecado de ficar sem pentear cabelos? Quem vai me dizer isso? Você e essa sua rotina de cabelos lambidos, oleosos, sebosos que refletem uma luz vinda de uma lâmpada de 40w?  E nem vou raspar a cabeça como Oliver! Você está sendo dramática. Eu lhe prometo que vou guardar os pentes. Eu apenas decidi que não vou me pentear. Ok?
(Pausa.)
BARBARA: Milan, o pente!
(Charlotte e Bárbara trocam olhares. Milan sai e reaparece cambaleante.)
MILAN levando as mãos à boca: Os pentes sumiram!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

mecânica-orgânica

Tu é como um susto manso. Um trovão que sussurra. O silêncio que me encosta mais do que qualquer palavra.  Não é sobre te conhecer. É sobre te reconhecer. Como se tu fosse uma porta que minha alma empurrou no escuro sem saber que do outro lado ia ter luz. E quando teus olhos cruzaram os meus — foi como se o mundo tivesse ficado em silêncio por um segundo, só pra eu ouvir o que o meu corpo dizia sem dizer. Ou melhor, gritava. Era um arrepio antigo, um frio na barriga que parecia abraço de memória. Tipo quando a gente lembra de algo que ainda não viveu, mas jura que já sonhou em alguma vida. E eu só queria poder tocar teu rosto com o pensamento, só pra te avisar que você existe em mim como música mesmo nos dias em que eu não escuto nada. Eu fico tentando não pensar. Mas teu nome sem som grita por dentro como se tivesse sido escrito nas paredes do meu estômago.  Palavras-borboletas, mecânica-orgânica. Quando respiro fundo tu vem. Na forma do ar que eu inspiro na curva do céu que ...

2x2

era fim de tarde ou começo de alguma coragem as portas ficam a 20cm de se fechar quando um braço tatuado interrompe o movimento  e ai você já não era mais só nem ele. duas presenças no mesmo quadrado de ar rarefeito e o tempo suspenso você segurava palavras como quem carrega uma xícara cheia cada sílaba tremia no pires do peito mas mesmo assim falou. falou da cicatriz. da piada inventada na copa aobre um urso que causou a cicatriz da moto, da sexta-feira. coisas pequenas que encobrem um coração escancarado. ele estava mais solto do que a última vez como se soubesse que ali dentro morava um perigo bom. e você, estava inteira. tensa. viva. completamente fascinada pelo instante. era só um elevador... alguns podem dizer. mas a verdade é que  todo mundo sabe que  os grandes encontros moram nos menores espaços.

Dark side of the luaemgêmeos

Ai de mim! Uma lua que flutua! Quantas vozes falando ao mesmo tempo! Essa mania de querer presentear com termos os não-nomeáveis sentimentos. Galera: não dá pra ouvir ninguém! Que trabalho estéril! Dar nome ao que não se pode dar nome... Que não o faça mais! As vozes: elas não param! Que trabalho estéril! Elas se encarregam de gritar nomes & termos para me ajudar a esclarecer tudo isso que não é passível de esclarecimentos Me sinto como em uma guerra de conceitos, pescando no meio de ruídos pequenos excertos de cada sentença lunar Pedaço daqui pedaço dali Construo um Frankstein de significâncias Que não servem pra nada além de significar & ressignificar Para construir um castelo em cima de terra inflamada & movediça Que logo desmorona com a primeira nova genial ideia de dar novos significados Que trabalho estéril! As vozes, elas não param nunca! Que  trabalho  estéril! Continuam sem descanso, se reposicionando sobre as sensações que parasitam em mim Como se fosse u...